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Rushdie esteve 'perigosamente perto' de morrer, diz acusação
O escritor Salman Rushdie esteve "perigosamente perto de morrer", disse nesta segunda-feira (10) a promotoria, durante o julgamento do suposto autor do ataque que fez o autor de "Os Versos Satânicos" perder a visão de um dos olhos.
Hari Matar, um libanês-americano de 27 anos, gritou "Palestina livre!" ao entrar no tribunal do Condado de Chautauqua, em Mayville, Nova York. Ele é acusado de tentativa de homicídio e agressão.
O acusado, preso no local do ataque, esfaqueou o autor de "Os Filhos da Meia-Noite" uma dúzia de vezes no rosto, pescoço e abdome em 12 de agosto de 2022, o que deixou a vítima entre a vida e a morte por semanas.
O promotor de distrito Jason Schmidt afirmou que Rushdie havia acabado de se sentar para dar uma palestra no Anfiteatro Chautauqua para cerca de 1.000 pessoas em 12 de agosto. "Um jovem de estatura mediana usando uma máscara escura (...) apareceu no fundo do teatro", disse Schmidt. "Uma vez no palco, ele acelerou a toda velocidade".
"Matar cravou a faca no Sr. Rushdie com força, eficiência e velocidade, repetidamente... golpeando e esfaqueando a cabeça, o pescoço, o abdômen e a parte superior da coxa" do escritor. Segundo Schmidt, Rushdie levantou as mãos para se defender, mas permaneceu sentado após ser atingido diversas vezes.
Deborah Moore Kushmaul, funcionária do centro cultural, disse ao júri que recolheu a faca usada no ataque e a entregou à polícia. "Vi sangue, vi as pessoas se aglomerando. Nosso público, em boa parte idosos, gritava. Minha maior preocupação era de que pudesse haver uma bomba nas bolsas, que pudesse haver outro agressor."
O autor do ataque esteve "perigosamente perto" de matar Rushdie, afirmou Jason Schmidt, acrescentando que o autor foi esfaqueado em seu olho direito com tanta fúria que o nervo ótico foi afetado. "A pressão arterial dele estava baixa. Ele perdeu muito sangue."
- 'Ataque ao islã?' -
O escritor britânico-americano, 77, nascido na Índia e morador de Nova York, não compareceu ao julgamento. Rushdie recebeu ameaças de morte desde que sua obra "Os Versos Satânicos" foi declarada blasfema em 1989 pelo então líder supremo do Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini.
Khomeini emitiu uma fatwa (decreto religioso) em 1989 convocando muçulmanos ao redor do mundo a matar Rushdie.
Matar, que se declarou inocente da tentativa de homicídio, também foi acusado em julho, por um tribunal federal, de fornecer apoio e recursos ao movimento xiita libanês Hezbollah, ligado ao Irã, que apoiou a fatwa. A advogada Lynn Schaffer alertou que os promotores "fazem suposições sobre o Sr. Matar que afetam a forma como investigam".
- Duas páginas -
Matar, que usava uma camisa azul e falava frequentemente com sua equipe jurídica de cinco membros no tribunal, disse ao New York Post, após sua prisão, que havia lido apenas duas páginas do romance de Rushdie, mas acreditava que o autor havia "atacado o islã".
Em sua obra "Faca: Reflexões sobre um atentado", publicada em abril do ano passado, o escritor contou como superou o ataque e mantém uma conversa imaginária com seu carrasco, cujo nome não mencionou, sobre suas crenças e motivações.
No livro, Rushdie lembra que o "imbecil que imaginou coisas sobre mim", como ele chama o agressor, leu apenas algumas páginas do livro que motivou a fatwa.
Até o ataque de Matar, Rushdie havia sido vítima de mais de seis tentativas frustradas de assassinato.
Depois de viver sob escolta por vários anos e escondido em Londres, Rushdie se estabeleceu em Nova York no ano 2000. Desde então, tem uma vida social intensa.
W.Mansour--SF-PST