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Bolívia vive uma 'rebelião' contra um governo 'submisso' aos EUA, diz Evo Morales à AFP
O ex-presidente socialista boliviano Evo Morales afirmou, nesta quarta-feira (27), que os protestos que sacodem seu país há um mês são uma “rebelião” contra um governo que está “submisso” aos Estados Unidos, em entrevista virtual à AFP.
O presidente de centro-direita Rodrigo Paz acusa Morales de estar por trás dos protestos de operários, camponeses, professores, caminhoneiros e mineiradores que exigem sua renúncia em meio à pior crise econômica da Bolívia em quatro décadas.
É “um governo totalmente submisso [aos Estados Unidos]. Percebo que chegou a hora de definir quem manda: o império ou o povo”, disse Morales, a partir da região cocaleira do Chapare, seu bastião político no centro do país.
“Esta rebelião, estou absolutamente convencido, é contra o modelo neoliberal e contra o Estado neocolonial”, acrescentou Morales, que governou o país andino entre 2006 e 2019.
Paz, que pôs fim a 20 anos de governos de esquerda - o liderado por Morales e o de Luis Arce (2020-2025) -, é um novo aliado latino-americano dos Estados Unidos, país que lhe expressou apoio e advertiu que a Bolívia enfrenta uma tentativa de “golpe de Estado”.
- “Não é mais minha vez” -
Morales, de 66 anos, é protegido por milhares de camponeses que impedem que a polícia cumpra uma ordem de prisão contra ele por uma acusação de suposta exploração de uma menor, o que ele nega.
“Eu gostaria de acompanhar [as manifestações], mas este caso de tráfico” não permite, afirmou o líder cocalero.
Morales denunciou um suposto plano dos Estados Unidos, segundo ele apoiado pelo governo de Paz, para executar uma operação militar com o apoio da DEA, a agência antidrogas americana, e do Comando Sul dos EUA, para detê-lo.
Sem mencioná-lo, o secretário de Estado, Marco Rubio, disse na semana passada que os Estados Unidos não permitirão “que criminosos e narcotraficantes derrubem líderes eleitos democraticamente”.
Morales negou estar por trás dos protestos, embora seus seguidores participem de bloqueios de estradas em Cochabamba, centro do país. As marchas em La Paz de operários, camponeses e caminhoneiros provocaram o desabastecimento de alimentos, remédios e combustíveis.
“A fome convoca esta mobilização”, insistiu aquele que foi o primeiro presidente indígena da Bolívia.
Na terça-feira, o Congresso boliviano revogou uma norma que permitia a Paz declarar estados de exceção e controlar as manifestações com militares sem aprovação parlamentar.
Se ele o fizer, “duvido que o povo” recue, disse Morales.
Impedido de concorrer às eleições presidenciais de 2025 por uma decisão do Tribunal Constitucional, ele propõe que o atual governo convoque eleições em 90 dias e assegurou à AFP que não tem “ambição” de voltar a ser candidato.
“Agora não é mais minha vez. Mas tenho, sim, a obrigação de acompanhar” o movimento político que lidero, concluiu.
J.Saleh--SF-PST