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Sobreviventes da ditadura argentina recordam o horror após 50 anos do golpe
Uma mulher que foi sequestrada grávida na adolescência, um ex-estudante secundarista e uma ex-universitária que sobreviveram à ditadura argentina relataram à AFP suas histórias de tortura, morte e exílio, 50 anos após o golpe de Estado.
Representantes de uma geração dizimada, eles estiveram em diferentes prisões clandestinas entre as 600 da ditadura (1976-1983), responsável por 30 mil desaparecimentos, segundo organizações de direitos humanos.
Seus testemunhos ajudaram a condenar responsáveis por genocídio e a reconstruir o que aconteceu em locais como a Esma, o centro de extermínio de Buenos Aires por onde passaram cerca de 5 mil sequestrados e do qual apenas cerca de mil sobreviveram.
Esses sobreviventes também ajudaram a provar o roubo sistemático de bebês e os "voos da morte", nos quais militares lançavam ao mar pessoas sequestradas e dopadas.
- 16 anos, grávida -
Em 24 de março de 1976, quando o golpe que derrubou Isabelita Perón como presidente ocorreu, "a sensação era 'chegou'. Ouvimos pelo rádio o anúncio do estado de sítio. Havia revistas, paravam ônibus", diz Ana Careaga, psicóloga de 64 anos.
"Fui sequestrada em 13 de junho de 1977, me levaram a um local, me despiram e começaram a me torturar", relatou. "Ali me tiraram a identidade, já não era Ana, era K04".
"Queria morrer, mas me diziam 'vamos te manter viva para continuar te torturando'", e assim fizeram durante quatro meses.
Falar e chorar era punido com tortura. "A fome era desesperadora, eu contava os segundos até virar minutos e horas esperando a comida, mas a traziam fervendo e a levavam antes que esfriasse o suficiente".
No início, Careaga escondeu a gravidez. "Pensei que, pela intensidade da tortura, teria morrido. Em uma ocasião, deitada e acorrentada sobre uma estrado, o neném começou a se mover no meu ventre. Foi a vitória em meio à morte", disse. Foi a única vez que ela chorou no cativeiro.
Libertada, obteve exílio na Suécia, onde sua filha nasceu.
Dias depois do parto, Careaga soube que sua mãe havia sido sequestrada junto a outras líderes da recém-criada associação Mães da Praça de Maio, ao sair de uma igreja onde se reuniam, a mesma onde fala com a AFP.
Torturadas na Esma, essas mães sequestradas foram lançadas vivas ao mar junto com duas freiras francesas. O mar trouxe os corpos, amarrados de pés e mãos. Anos depois os restos mortais foram identificados e enterrados na mesma igreja "onde haviam sido livres pela última vez".
- 18 anos, estudante -
Pablo Díaz, empresário de 67 anos, era adolescente quando foi sequestrado em 1976 nas operações contra líderes estudantis que reivindicavam tarifa de transporte escolar.
O episódio é conhecido como "A noite dos lápis" e foi adaptado para o cinema em 1986 para retratar o sequestro de sete deles. Apenas ele sobreviveu.
Perseguido, ele se refugiou na casa de um amigo, mas voltou para casa a pedido do pai, que acreditava que estaria seguro.
"Voltei, e naquela madrugada me sequestraram e ainda roubaram joias", disse. Procuravam "material subversivo, armas, mas a única coisa que encontraram foi uma revista Playboy debaixo do meu colchão. Riram, mas me levaram assim mesmo" para um centro clandestino sob o comando do chefe policial Miguel Etchecolatz, condenado a nove prisões perpétuas e morto em 2022.
"Soube que havia campos de concentração quando estive em um e que havia tortura quando fui torturado", resume.
Os torturadores arrancaram suas unhas, aplicaram choques elétricos, o privaram de comida e o submeteram a simulações de fuzilamento.
Durante seus três meses de cativeiro, viveu uma história de amor com Claudia Falcone, de 16 anos. "Prometi que, quando saíssemos, seríamos namorados. Ela me relatou que havia sido estuprada", relembrou.
Os captores lhe encarregaram de cuidar de sequestradas grávidas. "Fui testemunha de três nascimentos", disse. Os bebês foram roubados ao nascer. "Dois foram encontrados muitos anos depois".
Falcone e os outros estudantes foram fuzilados, e Díaz foi transferido para uma prisão legal. Em 1985, testemunhou no histórico Julgamento das Juntas. "A sociedade só soube então que crianças e adolescentes também desapareceram".
- 19 anos, universitária -
Miriam Lewin, jornalista de 68 anos, tinha 19 quando golpe o ocorreu. Como militante da Juventude Peronista, ela passou à clandestinidade.
"Não pensávamos que a repressão seria tão massiva e implacável", disse.
Lewin foi sequestrada em 1977 e permaneceu dois anos em cativeiro, o último na Esma, onde sofreu tortura e trabalho forçado.
"Era um centro de extermínio", afirma. Ela contou que os algozes faziam os prisioneiros acreditar que iriam para uma estância no sul e, na ingenuidade, alguns pediam para ir "porque não suportavam mais ficar encapuzados, comendo comida estragada cercada por ratos".
Seu testemunho contribuiu para a condenação de três deles.
Em uma demonstração da impunidade dos militares, eles a levaram, com outros prisioneiros, para se misturar aos argentinos que celebravam a conquista da Copa do Mundo de 1978, após a final disputada no estádio do River Plate, vizinho à Esma.
"Pálidos, imóveis naquele mar de gente transbordando, pensei: isso vai durar mais 40 anos".
No entanto, em 1982, a ditadura começou a ruir e declarou guerra ao Reino Unido pelas disputadas Ilhas Malvinas. A Argentina perdeu a guerra, mas em 1983 voltou ao caminho democrático.
L.Hussein--SF-PST