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Exército sírio ocupa áreas antes controladas por curdos, em meio à trégua
O exército sírio foi destacado, nesta segunda-feira (19), para as áreas anteriormente controladas por curdos, após um acordo anunciado na véspera que, segundo analistas, representa um golpe para as ambições desta minoria de preservar uma autonomia de facto.
O governo interino da Síria, liderado por Ahmed al Sharaa, tenta impor sua autoridade em todo o território após a deposição de Bashar al Assad no final de 2024.
O líder das forças curdas da Síria, Mazloum Abdi, declarou no domingo que havia aceitado um acordo com Damasco para evitar uma guerra mais ampla.
O pacto foi anunciado após os avanços recentes das forças sírias nos territórios controlados pelos curdos no norte e no leste do país. As tropas também expulsaram as forças curdas da cidade de Alepo no início de janeiro.
O acordo, de 14 pontos, foi alcançado após meses de duras negociações e prevê a integração de forças e instituições curdas ao Estado. Bem como a entrega imediata ao governo das províncias curdas de Deir Ezzor e Raqqa.
As Forças Democráticas Sírias (FDS), dominadas pelos curdos, haviam alcançado um acordo de integração com Damasco em março, mas vários obstáculos impediram sua implementação.
Apoiadas por Washington, combateram e derrotaram o grupo Estado Islâmico (EI) no país.
Nesta segunda-feira, Al Sharaa deve receber Abdi em Damasco para finalizar os detalhes do acordo de cessar-fogo.
Apesar do pacto, três soldados sírios morreram nesta segunda, de acordo com o exército, em confrontos com as forças curdas, que acusaram os soldados do governo de atacá-los.
- "Queremos estabilidade" -
Analistas acreditam que o acordo representa um duro golpe para as ambições da minoria curda de preservar uma autonomia em amplas áreas do norte e nordeste do país.
Na província de Deir Ezzor, no leste, um correspondente da AFP viu dezenas de veículos militares dirigindo-se ao leste do rio Eufrates, enquanto caminhões, automóveis e pedestres aguardavam em uma pequena ponte.
Mohammed Khalil, um motorista de 50 anos, declarou à AFP que estava satisfeito com a chegada das forças governamentais. "Esperamos que as coisas melhorem. Não havia liberdade" sob o controle das FDS, afirmou.
Safia Keddo, uma professora de 49 anos, disse, por sua vez: "Queremos que as crianças voltem à escola sem medo e que sejam restabelecidos o fornecimento de eletricidade, água e pão. Não pedimos um milagre, só queremos estabilidade e uma vida normal".
O Exército afirmou que "iniciou o destacamento" no norte e no leste da Síria "para assegurar a zona nos termos do acordo", e acrescentou que as forças haviam chegado aos arredores da cidade de Hasakeh, cuja província é reduto dos curdos.
O pacto também estipula que Damasco assuma a responsabilidade pela custódia dos prisioneiros do grupo jihadista EI e de suas famílias, detidos em prisões e campos controlados pelos curdos.
Um correspondente da AFP em Raqqa informou que as forças de segurança foram posicionadas na praça principal, enquanto um comboio militar atravessava a cidade e ouviam-se tiros esporádicos. Raqqa foi o antigo reduto do EI na província homônima.
Khaled al Afnan, de 34 anos, residente desta localidade, disse que apoiava "os direitos civis dos curdos", mas insistiu não respaldar que tivessem "um papel militar". "Este acordo é importante para proteger a vida dos civis", afirmou.
- Dúvidas -
As FDS retiraram-se no domingo das áreas sob seu controle na região oriental de Deir Ezzor, incluindo os campos petrolíferos de Al Omar, o maior do país, e Al Tanak.
Al Omar estava sob controle curdo desde que suas forças expulsaram o EI em 2017. Durante anos, este local abrigou a maior base da coalizão internacional antijihadista liderada pelos Estados Unidos.
Mutlu Civiroglu, analista e especialista em assuntos curdos sediado em Washington, afirmou que o avanço do governo "levanta sérias dúvidas sobre a durabilidade" do cessar-fogo e do acordo de março entre o governo e os curdos, que está estagnado.
"Os confrontos de [Al] Sharaa com as forças curdas, após as pressões exercidas anteriormente sobre as áreas alauitas e drusas, reforçam as dúvidas sobre a legitimidade do governo provisório e sua capacidade de representar a população diversa da Síria", acrescentou.
No ano passado, foram registrados episódios de violência sectária no reduto costeiro alauita do país e na província de Sueida, no sul da Síria, de maioria drusa.
H.Jarrar--SF-PST