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Os desafios de Macron em 100 dias para superar a crise previdenciária na França
O presidente liberal da França, Emmanuel Macron, delimitou o prazo de 100 dias para superar a atual crise política e social ligada à sua impopular reforma da Previdência e engatar sua reeleição, mas quais são seus principais desafios?
"Temos diante de nós 100 dias de apaziguamento, unidade, ambição e ação a serviço da França", disse Macron em um discurso televisionado na noite de segunda-feira (17).
Acalmar os ânimos será uma tarefa complicada, a julgar pelas vaias e panelaços que continuou recebendo nesta quarta-feira(19) o presidente, que fará uma "primeira avaliação" da situação em 14 de julho.
- "Apaziguar" o conflito -
Desde janeiro, a França vive uma crise política e social diante da reforma que aumenta a idade de aposentadoria de 62 para 64 anos a partir de 2030 e antecipa para 2027 a exigência de contribuição por 43 anos, e não 42, para receber a aposentadoria integral.
Ainda que tenha visto os maiores protestos sociais contra uma reforma social em três décadas, Macron não cedeu e decidiu, em março, adotar a reforma por decreto, temendo não ter apoio suficiente no Parlamento, onde seu partido não tem maioria absoluta.
Após a rápida promulgação da lei, que entrará em vigor no outono, Macron quer diminuir a tensão nos próximos meses, e seguir adiante com sua agenda reformista.
"Parece haver um leve desejo de dizer que a fase de reforma da Previdência acabou e que é hora de virar a página. Mas para muitos franceses esse não é o caso", disse à AFP Antoine Bristielle, analista da Fundação Jean Jaurès.
Os sindicatos se recusam a se reunir com o presidente antes de 1º de maio, quando convocaram uma "mobilização excepcional" no Dia Internacional do Trabalho.
A esquerda apresentou uma segunda petição para convocar um referendo com o objetivo de limitar a idade de aposentadoria a 62 anos, sobre o qual o Conselho Constitucional deve se pronunciar em 3 de maio, após rejeitar a primeira solicitação.
Os manifestantes também buscam atrapalhar visitas de Macron pelo país. Nesta quarta-feira, cerca de cem pessoas protestaram com panelas em Muttersholtz (nordeste), horas antes do presidente visitar a região.
"As panelas não farão a França progredir", respondeu Macron durante seu deslocamento, quando foi duramente vaiado.
- Formar uma maioria estável -
Menos de um ano após sua reeleição, o partido de Macron ainda tem quatro anos complicados pela frente caso não tenha apoio na Assembleia Nacional (Câmara Baixa).
O presidente francês pediu à sua primeira-ministra, Elisabeth Borne, que ampliasse sua base "tanto quanto pudesse", procurando, por exemplo, o apoio do partido de oposição de direita Os Republicanos, cujos 62 deputados poderiam estabelecer uma maioria pró-Governo.
No entanto, o líder deste partido na Assembleia, Olivier Marleix, rapidamente pôs fim à ideia. "Não haverá coligação nem pacto de governo", disse ele, reforçando a divisão política acerca da reforma previdenciária.
Outra medida de governo polêmica vislumbrada por Macron é a de "reforçar o controle da imigração ilegal", que já estava pautada em seu programa eleitoral e que interessa aos Republicanos.
O ministro do Interior, Gérald Darmanin, apresentou em fevereiro um projeto de lei sobre imigração, mas teve que retirá-lo por não receber apoio suficiente.
Agora, pretende relançá-lo e o líder dos Republicanos, Éric Ciotti, contou à AFP que se Darmanin "alinhar-se" com eles, poderão negociar. Seu partido rejeita a regularização de trabalhadores sem documentos na França.
- Restaurar a confiança -
Vivendo sua primeira grande crise no segundo mandato, o presidente francês é alvo dos opositores, que questionam o funcionamento da democracia no país.
"Estamos vivenciando a repetição dos coletes amarelos, mas muito mais grave", afirmou Pierre Rosanvallon à emissora TMC.
Para o historiador e sociólogo, a França atravessa "a crise democrática mais grave" desde a independência da Argélia, em 1962.
Macron foi reeleito com 58,5% dos votos em abril de 2022, em grande parte como uma forma de conter sua rival da extrema direita, Marine Le Pen.
Um ano depois, as pesquisas mostram uma queda na confiança de seu mandato, cuja popularidade está abaixo dos 30%, e nas instituições, além de um aumento nas intenções de voto em Le Pen.
A.Suleiman--SF-PST