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Operações de resgate prosseguem na Venezuela entre alertas de escassez e doenças
As operações de resgate e ajuda prosseguiam nesta terça-feira (30) na Venezuela após os dois terremotos da semana passada que deixaram pelo menos 1.700 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos, enquanto agências da ONU alertaram para a escassez de alimentos e o risco de doenças.
A tragédia deixou um cenário de devastação na Venezuela, onde a população não esconde a revolta com a ajuda lenta e insuficiente do governo, em um país que enfrenta uma crise profunda.
A Nasa (agência espacial dos Estados Unidos) calcula que mais de 58.000 edifícios ficaram provavelmente danificados ou destruídos pelos terremotos que assolaram o norte da Venezuela, segundo uma avaliação preliminar de dados de satélite.
Enquanto diminuem as esperanças de encontrar vida sob os escombros após cinco dias do tremor, a ajuda humanitária está voltada para as milhares de pessoas que ficaram sem casa.
"Estamos dormindo no chão, eu estou dormindo no chão porque não tenho colchões", disse à AFP Jenny Tortoza, uma mulher que passa as noites na rua em Catia La Mar, no estado de La Guaira.
Na região a 40 km de Caracas, a mais castigada pelo terremoto duplo, "a escassez de comida é generalizada, os serviços básicos entraram em colapso", advertiu nesta terça-feira o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.
"As tensões comunitárias estão aumentando, já que o acesso à ajuda continua limitado", acrescentou.
O porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Christian Lindmeier, também fez um alerta a respeito da "pressão extrema" sobre os serviços de saúde e o risco "de doenças evitáveis por vacinação, como o sarampo, a difteria e a coqueluche".
- Porto operacional -
Para acelerar a chegada de suprimentos, os marines americanos colocaram novamente em operação na segunda-feira o porto de La Guaira, um dos mais importantes do país.
Os terremotos de 7,2 e 7,5 graus de 24 de junho estão entre os mais intensos e devastadores registrados na América Latina no último século.
Além de destruir centenas de prédios, os terremotos deixaram inoperante o principal aeroporto da Venezuela, localizado em La Guaira, e também o porto reparado pelos militares dos Estados Unidos.
Na área de depósitos do porto de La Guaira, o estado mais devastado, um necrotério improvisado foi instalado, constatou a AFP.
Prédios transformados em montanhas de escombros são revirados por equipes de resgate e voluntários com a esperança de encontrar algum sobrevivente, uma possibilidade remota depois de mais de cinco dias da tragédia.
Em Junquito, uma cidade turística próxima de Caracas, Carmen Angarita conseguiu se salvar graças ao sobrinho, que removeu os escombros de um prédio que desabou.
"Eu disse que não sairia de lá", lembrou a comerciante de 53 anos. "Eu estava resignada a morrer ali", ao lado de uma neta de 8 anos, acrescentou.
- À espera de milagres -
O governo militarizou La Guaira e impôs um procedimento de autorização para permitir o acesso à área de desastre.
Um total de 27 países mobilizaram cerca de 40 equipes de busca e resgate, o que representa mais de 2 mil pessoas, com o auxílio de mais de 160 cães, informou Gianluca Rampolla, coordenador da ONU na Venezuela.
A ONU, acrescentou o funcionário, fornecerá 10.000 sacos mortuários ao país, mas espera que o balanço final seja inferior.
A janela crítica de 72 horas para encontrar sobreviventes terminou na noite de sábado. Milagres, no entanto, podem acontecer.
Uma mensagem de WhatsApp de uma mulher provocou esperanças de encontrar alguém entre os escombros.
Um jovem de 21 anos, identificado como Aarón Levi, foi resgatado na segunda-feira na localidade de Tanaguarena, segundo um vídeo divulgado por uma fotógrafa que acompanhou a operação.
O governo calcula que 855 prédios tenham sofrido danos por causa dos terremotos, incluindo 189 que desabaram por completo, em La Guaira e Caracas. Já a ONU calcula quase 7 milhões de desabrigados e danos materiais de 6,7 bilhões de dólares (R$ 34,6 bilhões), o que representa 6% do PIB do país petroleiro.
- "Minha família está ali" -
Os dois crematórios do único cemitério público de Caracas operavam em sua capacidade máxima. Entre sexta-feira e sábado, foram realizados mais de 60 enterros por dia.
Quando os trabalhadores começaram a fechar o caixão de seu sobrinho, Sergio Vergara caiu de joelhos no chão. Foi ele quem o encontrou ao lado de toda a família em um prédio que desabou em La Guaira. "Foi uma experiência horrível, tirar ele, os filhos dele", disse o venezuelano de 42 anos.
Muitos ainda aguardam pelos corpos de seus parentes.
"Minha família está ali, me disseram que minha irmã e os filhos dela estão lá, assim como os filhos do meu irmão, que sobreviveu", disse Wilker Molalla, de 25 anos, enquanto aguarda para identificar os corpos no necrotério improvisado do porto. Apenas ele e o irmão sobreviveram de uma família de 11 membros.
O medo persiste. "Não consigo dormir debaixo de um teto, tenho pânico de morrer esmagado", disse Sergio Vergara no enterro de um sobrinho.
T.Khatib--SF-PST